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The Sun Green Hills

Conversas de café e outros devaneios...

greendale

sábado, novembro 24, 2007

O carreiro de formigas


Parado pelo sinal vermelho espero paciente no meio de uma avenida, onde o trânsito massivo leva toda a gente para casa. Os sons que nos chegam de outras partes da cidade, de outras avenidas, ecoa, trespassa-nos e segue para todos os lados enfranquecento à medida que a distância cresce. Os carros ganham vida própria sendo de notar a idiossincrasia dos mesmos. Uns mais agressivos outros de cristalina alma, seguem, param, esperneiam, espreguissam-se, resmungam, conversam uns com os outros, chegam a tocar-se e beijam-se - assim, melosamente, alguns despoetizam. Será como um carreiro de formigas, tem de se olhar bem de perto e atentamente para que se possa verificar a diversidade de situações que um carreiro compreende e que cada formiga não é igual a outra, não que uma ande de bigode e outra não, mas sim pelo caminho que cada uma pisa muito levemente ou pelo número de camaradas que cada uma se dispõe a cumprimentar.
O sinal permanece vermelho. Agora, ouço com mais atenção o rugir grave desse ser social que o trânsito é, e noto com clareza nas centenas de luzes em movimento e em todo o peso sonoro a elas associadas. Aí, nota-se em cada um dos indivíduos, em cada roda, em cada palavra, em cada cor esmorecida, em cada focar e desfocar, em cada aproximação ou distanciamento calculado. Depois, passados uns segundos, eis que chega de novo o outro distanciamento, o do dia-a-dia, o seco, e com ele uma certeza quase inquestionável de que jamais iria conseguir ouvir o rugir de um carreiro de formigas.
O sinal estava verde e lembro-me de falar comigo e dizer: "Foda-se, finalmente!" e segui, passo firme, fininho, que a andar também se pensa.

2 Comments:

Blogger Kata said...

Sublime leitura do quotidiano urbano, meu irmão.

A respeito, uma vez li nalgum texto relacionado com a teoria dos sistemas complexos, que todas as interacções com tendência para o caos são previsíveis e até mesmo manipuláveis. Queria com isto dizer que, por exemplo, numa situação de trânsito, controlando uma simples variável poderemos predizer toda a sua dinâmica, velocidade, engarrafamento.

É curioso, é como se essa dinâmica, afinal de contas controlável por fórmulas matemáticas, tivesse em conta apenas e só a impessoalidade dos carros que compõem o trânsito. Como se não houvesse condutores felizes, furiosos ou indiferentes a toda a situação de freno e com possibilidades de o viabilizar ou mudar.

Ou, por outro lado, será que esta teoria pressupõe também que, nesta dinâmica terá sempre de haver condutores felizes, furiosos ou indiferentes que, consoante o seu estado de espírito transmitem diferentes dinâmicas ao trânsito em que estão envolvidos?

Então, se sim, somos mesmo formigas num carreiro, sendo que o nosso carácter dentro de um carro, vale tanto como o chassis do próprio carro... Afinal de contas, seríamos tão peças da engrenagem como qualquer outra variável igualmente (im)pessoal.

Teremos sido apanhados pelo Matrix? :)

1:21 da tarde  
Blogger .sakul.onurb. said...

habitamos todos a mesma "bar(r)aka"

11:13 da manhã  

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