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The Sun Green Hills

Conversas de café e outros devaneios...

greendale

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Carta aos anciãos:


Se os demais conhecimentos que vós encerrais nas epidermes dos vossos actos, no fundo do vosso sossego, ou na carne de vossa voz, não encontrarem razão nem fundamento, ou simplesmente predisposição para se albergarem nas almas verdes, ainda em crescimento, de vossos discípulos, eu encararei o facto com a certeza de que tudo isso é certo. Mas se os quiserdes nus, ante os olhos dos atentos, aí meus caríssimos anciãos, meus respeitáveis senhores do saber, expliquem-nos o que se nos depara diante dos nossos olhos ingénuos e interessados, pois, poderemos ver do mesmo desenho mil formas diferentes, ou pedras em vez de pétalas.
A passagem de testemunho é um momento onde o que pesa não é o testemunho em si, mas as condições em que este é passado. Se assim não for é certo que caia.
Anciãos, dizei-nos tudo mas, fundamentai, em cumplicidade com quem vos escuta, aquilo que nos quereis fazer entender.
Jamais colocaria em causa a verdade que vos assiste quando curvando-me perante vós vos peço o fundamento das vossas razões, que hão-de ser as minhas. Isto porque antes de pensar quero saber porque penso, ou, porque penso no que penso.
E por isto, anciãos, árvores seculares de mil ramos, se por alguma razão nos quiserdes dizer algo dizei-nos, mas dizei também porque é que dissestes algo. Assim cresceremos como vós, árvores seculares de tronco enorme, de mil ramos e raízes profundas.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

TIQUES&MANIAS

Sim, manias que temos no mais íntimo do nosso ser & tiques que expressamos sem pensar através de pequenos gestos repetitivos, identificativos, representativos e circulares. Se ninguém vislumbra as manias, por sua vez os tiques são por demais evidentes. Porém, ambos nos descrevem e revelam. Assim:

MANIAS

- Não ser capaz de estudar sem ter o meu roupão vestido e as minhas pantufas calçadas.

- Também nos momentos de trabalho caseiro, ligar o computador assim que acordo ou chego, mesmo que antes me vá dedicar a outras coisas. Assim, não estando a trabalhar, parece que já estou... Neste preciso momento isso está acontecer: tenho o Word aberto.

- Ao caminhar na rua tentar sempre pisar as tijoleiras de forma centrada e simétrica. Também não gosto de pôr os pés em linha recta com os ombrais das portas ou com as esquinas das casas e muros. Calcar as sombras está fora de questão.

- Sentar-me sempre nos mesmos sítios. Seja em salas, autocarros ou balneários.

- Dormir no sofá quando preciso de acordar cedo e já me estou a deitar tarde. É que dormindo mal ser-me-á mais fácil despertar.

TIQUES

- Dizer sempre "Hã" no final de cada frase, ora a confirmar ora a questionar o que acabo de expressar.

- Ter sempre, pelo menos, uma mão no bolso. Quando estou sentado essa mesma mão passeia-se pela cara afagando-me a barba de 3 dias.

- Tocar no nariz quando estou desconfortável. Este desconforto é normalmente acompanhado por um longo silêncio. Quando estou à vontade, falo pelos cotovelos e tento tocar com as mãos na pessoa com quem estou a dialogar (monologar?).

- Fazer caracóis no (meu) cabelo.

- Franzir o sobrolho para focar.

Este desafio chegou ternamente ao The Sun Green Hills por intermédio da Beatriz (Wisdom, that's what i've aspired). Não sou nada de correntes mas gosto de retratos, assim aqui está a minha resposta... Segundo o regulamento que transcrevo terei de delegar o mesmo a cinco bloggers (atenção que, como qualquer regulamento, a flexibilidade também é lei). Não no intuito de fechar um ciclo mas sim de abrir um outro que tento há já algum tempo, proponho que os "contributors" deste blog falem sobre as suas manias. Assim, abrimos definitivamente a mesa e perdemos a timidez.

Regulamento: «Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.»

Ressaca conscientemente pesada

Batendo nas fachadas das ruas, abstraído de raciocínio, como um pêndulo que conta momentos destes e outros, até ao infinito, sem sentir, sem pensar, aí se revela o instinto!
Estarei nessa altura mais perto do “Ser”? Sei que naquela madrugada não estava!? Ou estava? Meu corpo embebido de espíritos que me guiavam a todo o lado e aqui. A este prolongamento temporal que conscientemente me faz sentir o Sol na pele, a sombra nos planos, na intersecção das dimensões…
Agora… pensar com o registo sem parar. Também perto do “Ser” agora! Desta forma ou de outra, simplesmente o prazer…
Os outros são importantes, os outros somos nós! Não tanto a opinião, mas sim a divergência, a discussão, a diferença, a convivência…
O sangue, a química nos absorve porosamente em nós mesmos nos outros. Energia imperceptível, incompreensível, como tudo o é. Então porque escrevo?
Puro deleite..!

sábado, fevereiro 18, 2006

Pela Liberdade de Expressão

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Ainda as caricaturas de Alá

Tenho assistido a todas as histórias que têm envolvido as tais caricaturas de Alá. Mantive tenuamente os meus princípios relativamente à liberdade de expressão, isto por não ter ainda visto as ditas caricaturas e por isso não ter apreciado o seu nível de humor.

No entanto, abri por acaso um dos dez forwards que vou recebendo ao longo dos dias. Vinha acompanhado das fotos aqui ao lado.

Este rapazinho iraniano roubou um pão. Punição: em pleno espectáculo público, passar-lhe com um carro por cima do braço com que roubou o alimento que lhe mataria a fome. Fiquei estarrecido. Não acredito que seja esta a misericórdia de um qualquer possível Deus.

Lembrei-me então destes dois conceitos, coerência e moral. Ambos, ao juntarem-se explicam-nos que devemos fazer aos outros aquilo que gostávamos que nos fizessem a nós e mais que tudo que antes de acusarmos quem quer que seja devemos primeiro olhar ao espelho. Olhos nos olhos. A ver se somos capazes... Quem pode criticar umas simples caricaturas e depois dar este espectáculo? Convenhamos...

Vejo a coisa como duas crianças que brincam. Uma queixa-se que a outra a aleija enquanto esta se defende dizendo que só estava a brincar e não tinha intenção. O que respondemos? Evidentemente, dizemos à criança que não se ponha mais com brincadeiras, porque independentemente de ter ou não intenção magoa a outra. Caso resolvido. É o mesmo com os choques culturais. Se não gostam que se brinque, não se brinca. Cada um sabe das suas vicissitudes. Mas, sinceramente, pior que brincar às culturas é atentar contra a Humanidade tal como podemos constatar.

Contudo, atenção, também aprendi e acredito, que o sentido de humor próprio define os "inteligentes". Não é qualquer um que tem a capacidade de gozar consigo mesmo.

Todos sabemos que estas coisas acontecem diariamente para aquelas bandas. Mas, no meu caso, foi preciso ver mais umas fotos para me lembrar desses tristes factos e pensar concretamente em tudo o que se tem passado por causa daquelas humorísticas caricaturas. Isto não pode voltar a acontecer. Urgentemente.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

O Cigano Amolador de Facas


No organizado caos urbano que são as ruas de Barcelona vi hoje um cigano amolador de facas deambulando pé ante pé sentado na sua vespa. Fiquei incrédulo. Pareceu-me recuar vinte anos e estar novamente nas sempre presentes ruas de Mafra, onde diariamente também via um. Fazia sol e eu caminhava a passos ponderados, saboreando o envolvimento. O cigano, um terno homem num corpo de velho, assobiava as músicas do costume. Soprava feliz, demonstrando gosto por aquilo que fazia e ensinando a crença nos seus princípios e estilo de vida. A todos pareceu despropositado e pouca atenção lhe foi concedida naquele espaço de tempo em que me aconcheguei a observá-lo. Mais tarde – depois de ouvir novamente o seu timbre enquanto estava sentado na minha sala – voltei a cruzar-me com ele. Estava a trabalhar uma faca de um restaurante chinês. Dentro de si, com toda a certeza, esbracejava gritando que o seu lavor também era arte e que, tal como tudo o que fazemos com o sabor do nosso próprio sangue, igualmente vale a pena. Aquela faca ficou afiada como nenhuma outra.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

FADO

Há cerca de dois meses atrás veio-me parar à mão um folheto informativo. Publicitava um espectáculo de Dança Contemporânea num qualquer Centro Cívico de Barcelona e que se iria realizar dentro de dias. A Companhia que o apresentaria era italiana e composta apenas por um casal. O primeiro dos três actos propostos suscitou-me especial e sentido interesse: chamava-se “Solos en Lisboa” e assumiu-se como a grande motivação que me faria deslocar àquela sala. Desde logo compreendi que, provavelmente, estaria perante um dos momentos mais solenes desta minha nova emigração.

A ansiada sexta-feira chegou. Em passos largos corri para o auditório, não fosse perder um só minuto da performance que tanto me entusiasmava. À entrada pediram-me três euros, isto se apresentasse o cartão jovem. Não o tinha comigo. Como terá sido possível esquecê-lo? Já resignado com o dobro que pagaria, o sereno ancião que do outro lado estava sentado afirmou que para se ser jovem não era preciso ter cartão e que, por si só, pagar o que quer que fosse seria já uma exigência demasiado atroz. Agradeci com um sorriso e assenti a ideia.

Sentei-me nas primeiras filas. A sala não estava cheia, mas também não estava longe disso. Enquanto esperava fui sonhando com o que desejava presenciar. As cores e os timbres das pessoas. Os odores e temores das ruas estreitas. A magia e romantismo de quem olha o rio. A luz que dá vida ao Castelo. A música das esplanadas. O suor que escorre na face de quem sobe mais uma colina. O caos dos ritmos frenéticos. A alegria das noitadas sem fim…

Ouviu-se o silêncio… o espectáculo estava prestes a começar. Colada a uma parede de tijolos surge uma bailarina. As suas mãos percorrem lenta e suavemente as arestas nuas dessa fria barreira. Fundiram-se. O esplendor da sua motricidade evoca os momentos mais sensuais. Com passos firmes mas numa atitude discreta e vaga, avança em direcção ao público trovando num castelhano quase perfeito:

Me fue a Lisboa y me deparé con un portugués llorando.
Me acerqué a el y le pregunté porque lloraba.
Me contestó que lloraba porque estaba enamorado.
¿Pero de quien? Dije yo.
De nadie…
¿De nadie? ¿Entonces porque lloras tu?
Lloro de Puro Amor.


Logo depois entrou no mais profundo dos contorcionismos. O seu corpo frágil transpirava sofrimento. A sua alma estava plena de lágrimas. Os movimentos que traçava eram autênticas erupções de densa intensidade. E como ela se abraçava sozinha…

Novamente regressou à parede de tijolos e lentamente se encaminhou para a saída. As suas mãos preencheram um pouco mais, e mais uma vez, a agressiva argila. Tão incrédula como da primeira vez, repetiu o curioso diálogo enfatizando a sua última frase: Lloro de Puro Amor… De Amor Puro… De Puro Amor… De Amor Puro… De Puro… Terminou. A cortina desceu. Mais dois actos excepcionais se seguiram.

Findo o espectáculo, dirigi-me lentamente para casa. Tinha gostado bastante do que tinha assistido. Mas foi também uma surpresa. Daquelas que não são nem boas nem más. Ponto. De Lisboa não encontrei as cores, o cheiro, a música e, muito menos, as pessoas e a sua identidade. Convenci-me que assistira a uma bonita e convincente encenação que contava a estória de um português que estava apaixonado por ninguém. E por isso chorava. A meio caminho senti pena por a guitarra que acompanhara o acto não ter sido a de doze cordas.

O tempo foi passando e a saudade aumentando. A distância é implacável mas clarividente. Dá-nos permissão para criticar com pragmatismo. Vou assimilando a grandiosidade, amplitude e profundidade da nossa cultura com a mesma intensidade da paradoxa noção dos tiros que constante e teimosamente damos nos nossos próprios pés.

Hoje, sinto que naqueles curtos cinco minutos que deram lugar àquela extraordinária interpretação estava toda a nossa essência e valores. A sensibilidade dos sentidos, o olhar o horizonte na esperança de lhe tocar, a sofreguidão da nossa alegria, a paixão como principal bússola, o “sangue derramado” em busca da verdade, o fado do destino e os caminhos da alma. E mais, muito mais coisas simples! Naquele parco momento o Homem, através de Portugal, mostrou-se mais e melhor Homem. Disse acreditar na vida, no amor e no que está para além da vista. Por si só. Não foi preciso um grande discurso. Dos sábios são poucas as palavras que se ouvem e raras as portas que nos escancaram. Neles, dificilmente encontramos a eloquência do instante.

Estou orgulhoso. Aqueles que estavam sentados ao meu lado questionaram, certamente, os porquês do coração português.

domingo, fevereiro 12, 2006

Imagens: Nelson Mendes (1980), in “A Ti Profesor ¡Yo Acuso!” & “Another Brickin’ the Wall” (The Wall Movie) by Pink Floyd (1982).

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

"FUCKING BELGIUM WEATHER"

Há dias assim...

Acordamos vermelhos do calor do quarto. O aquecimento ficou ligado durante a noite e o corpo esse, está mole e cansado. Abrimos a janela esperando a luz rejuvenescedora e não encontramos mais do que um céu tenso e opaco. O vento não sopra forte, mas as pessoas enfiam vigorosamente as mãos nos bolsos dos anoraks e sobretudos, enquanto encolhem os ombros apertando-os contra as orelhas. Não se entende se os encolhem pelo frio ou se pela rotina que já não desafiam.
Talvez chova.

O rolar das bicicletas corta-nos com a mesma profundidade das buzinas dos carros, enquanto que as folhas das árvores, outrora resplandecentes, estão caídas no chão ou esvoaçam ao ritmo das passadas que as cruzam.


Perplexos e resignados, limitamo-nos a observar participativamente.

A solidão da multidão é asfixiante e as miradas que se cruzam nos transportes públicos vazias. O que vemos não nos interessa nem agrada. É melhor encostar a cabeça ao vidro, fechar os olhos e tentar sonhar com algo reconfortante. Realmente parece que estamos todos a levitar e que o tempo não passa de acordo com o avançar dos ponteiros. Somos etérios.

No meio da dormência sentimos ternura em algo. Pode ser o toque suave da lã ou o quase esboçar de um sorriso numa cara bonita. Pode ser outra (in)significância qualquer. Então sentimo-nos bem e convencemo-nos de que vale a pena. É como se a tristeza também tivesse a capacidade de rir, de ser e estar alegre, sem deixar de ser melancólica. Chora, desfrutando contente esse simples facto.



Há dias em que o mundo nos envolve por completo e não temos outro remédio senão, solidamente, baixar os braços. De um modo consentido e acima de tudo imperativo, somos levados pela corrente, qual camisa de forças impossível de fugir.

Perguntam-nos se se passa algo. Respondemos que não. Óbvia e sinceramente.

E não entendemos o porquê dos nós que temos no peito, pois a nossa carinhosa introspecção restringe-se, provavelmente, ao cinzento outonal do céu.

Estes dias também chegam ao fim, assim como já se silenciaram as notas musicais dos Air com o seu "Playground Love".

Amanhã certamente fará sol.